Ofensiva de Trump contra Irã leva preço do petróleo às alturas – e isso afetará o bolso dos brasileiros

sergio 9 de maio de 2018 0

Menos de 24 horas depois da saída dos Estados Unidos do acordo nuclear com o Irã, anunciada por Donald Trump nesta terça-feira, em Washington, países exportadores de petróleo já comemoram lucros expressivos: o preço do barril saltou para o valor mais alto desde 2014, sendo negociado na manhã desta quarta a US$ 77 (aproximadamente R$ 277).

Analistas americanos avaliam que a principal razão da alta é a incerteza sobre o futuro das exportações do petróleo iraniano – o país é um dos cinco maiores produtores do mundo e exporta atualmente mais de 2,6 milhões de barris por dia.

A decisão do presidente americano traz duas consequências imediatas: a primeira é o aumento dos preços dos combustíveis para o consumidor final – incluindo os brasileiros, que devem sofrer em dobro, com o aumento no dólar registrado nas últimas semanas. A segunda é alta na arrecadação dos municípios, Estados e países produtores de petróleo – algo que pode ser comemorado pelo governo brasileiro e por Estados como o Rio de Janeiro, extremamente dependente de royalties do petróleo.

Quando as rigorosas sanções econômicas prometidas por Trump contra o Irã entrarem em vigor, em novembro, especialistas estimam uma redução que pode variar entre 500 mil e 1 milhão de barris diários nas exportações iranianas – que voltariam aos níveis anteriores ao acordo assinado em 2015 com EUA, França, Reino Unido, Alemanha, China e Rússia.

Mas quem deve ocupar o “vazio” que aparecerá após as sanções sobre exportações iranianas?

Para Dan Eberhart, especialista no mercado de energia e CEO da empresa americana de serviços petroleiros Canary LLC, o movimento do presidente americano deve estimular a produção de petroleiras dos próprios Estados Unidos.

“A OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) deve continuar com sua capacidade adicional de produção inalterada, já que a Arábia Saudita está focada nos preços das ações de sua empresa estatal de combustível. Então, qualquer oferta adicional deve cair nos ombros dos produtores americanos. Algo que tenho certeza que deve deixá-los bastante felizes”, avalia.

No entanto, para Eberhart, a decisão traz um possível efeito colateral para a popularidade doméstica de Trump: o preço do combustível nos postos de gasolina americanos deve continuar subindo nas próximas semanas por conta do fim do acordo.

“A decisão será boa para o mercado de petróleo e gás dos EUA. Mas (Trump) não está fazendo isso por essa razão, uma vez que o preço da gasolina na bomba tem uma importância política significativa, especialmente quando entramos na temporada de viagens de verão (no hemisfério norte).”

A reviravolta na produção mundial do combustível acontece ao mesmo tempo em que a demanda por petróleo em todo o mundo dispara.

De acordo com dados divulgados recentemente pelo banco americano Goldman Sachs, a procura mundial pelo recurso cresceu no primeiro trimestre deste ano no ritmo mais acelerado dos últimos oito anos.

E no Brasil?

Segundo o economista Luis Carvalho, analista de petróleo e gás para a América Latina do banco suíço UBS, “a Petrobras deve ser afetada positivamente” com a decisão de Trump, já que a companhia vem repassando preços internacionais para o mercado doméstico.

“O pré-sal atualmente é viável com o valor petróleo próximo dos 35 a 40 dólares por barril. Consequentemente, com o barril próximo dos 77 dólares, a margem de lucro dessa produção será muito maior”, prevê.

Para David Zylbersztajn, diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, a notícia é positiva para a Petrobras e para a arrecadação do governo brasileiro, mas ruim para o consumidor.

“É claro que vai impactar no preço final, ainda mais porque há dois movimentos – o aumento do preço do barril com a saída dos EUA do acordo e o aumento do dólar”, que é fruto de incertezas sobre as eleições brasileiras e da chance de aumento nas taxas de juros dos EUA.

“O barril do petróleo é pago em dólar e essa subida tem forte impacto. Não dá para dizer como isso vai impactar a inflação. Diria que não será coisa dramática”, avalia Zylbersztajn em entrevista por telefone.

De outro lado, Estados como o Rio de Janeiro e o governo federal devem ver aumento na arrecadação com a alta no combustível.

“Governo e estados passam a arrecadar mais. E isso pode aumentar significativamente. O problema é que no Brasil se gasta mal na maioria das vezes. Quando cair o preço, os Estados entrarão em crise novamente. Não se criam condições para que a economia se reproduza. É igual a mesada da tia: quando ela morre, se você não investiu ou guardou nada, vai ficar sem mesada, sem dinheiro de uma hora para a outra”, compara.

Já para Ildo Sauer, que dirigiu a Petrobras durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva e é professor da Universidade de São Paulo, a perspectiva de aumento da inflação é grande.

“É essa a tendência, porque os preços de combustível no Brasil agora variam conforme a oscilação no mercado internacional. Isso deve afetar o custo de vida por causa do transporte urbano e de cargas, extremamente dependente da gasolina e do diesel. Vai aumentar o custo da classe média e seu mau humor, às vésperas das eleições”, diz Sauer à reportagem.

“Os lucros das empresas não-petroleiras também devem cair, porque o transporte de materiais, pessoas, alimentos, tudo vai ficar mais caro”, prevê.

Europa

A alta no petróleo e as quedas nas exportações iranianas podem arrefecer caso o país do Oriente Médio chegue a um entendimento com os outros signatários do acordo nuclear.

Todos eles – França, Reino Unido, Alemanha, China e Rússia – se opuseram publicamente à decisão unilateral de Trump.

“Os EUA não compram petróleo iraniano, diferentemente de outros signatários do acordo como Rússia, Reino Unido, França e Alemanha, que se opõem ao fim do acordo e devem continuar comprando petróleo iraniano. A Ásia, de longe o principal importador de petróleo do Irã, também deve continuar comprando, como já fez na rodada anterior de sanções”, avalia Sukrit Vijayakar, especialista em petróleo da consultoria americana Trifecta.

Na próxima segunda-feira, ministros das Relações Exteriores de França, Alemanha, Reino Unido e Irã devem se reunir para negociar um novo acordo, nos mesmos moldes do anterior, mas sem a participação dos americanos.

Nesta quarta, o chanceler da França, Jean-Yves Le Drian, disse que lamenta profundamente a decisão de Trump e afirmou que o acordo é “essencial para a manutenção da paz no Oriente Médio”.

Reações

Imediatamente após o anúncio, o presidente francês, Emmanuel Macron, disse que “o regime internacional contra a proliferação de armas nucleares está em jogo”.

Em comunicado conjunto, a primeira-ministra britânica, Theresa May, a chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente francês ressaltaram o “compromisso contínuo” por um acordo com o governo iraniano.

“Encorajamos o Irã a mostrar moderação em sua resposta à decisão dos EUA; o Irã deve continuar a cumprir suas próprias obrigações sob o acordo, cooperando plenamente e de maneira oportuna.”

Já o presidente iraniano, Hassan Rouhani, quase simultaneamente, afirmou que o anúncio mostra que “ao contrário do Irã, os Estados Unidos são um país que não cumpre seus compromissos” e afirmou que pode ordenar a retomada do enriquecimento de urânio “em ritmo industrial”.

Rouhani, cujo cargo está na berlinda por pressões internas de políticos linha-dura, que sempre se colocaram contra o acordo, disse que o anúncio de Trump é uma “guerra psicológica de Washington”. Na manhã desta quarta, parlamentares iranianos queimaram publicamente uma cópia do texto do acordo e gritaram “morte à América”, em nítido sinal de elevação da tensão.

China e Rússia, dois dos principais parceiros do governo iraniano, dizem que vão trabalhar para manter o pacto com o país.

Segundo analistas, a Rússia foi uma das principais vencedoras com a decisão de Trump – o país é um gigante produtor e exportador de petróleo (que agora chega a valor recorde) e deve se beneficiar de um aumento da desconfiança internacional sobre os EUA, que podem ser vistos como maus parceiros em tratados internacionais.

Com o crescimento da hostilidade no Oriente Médio e de conflitos com Arábia Saudita e Israel, o Irã deve se aproximar ainda mais dos russos, de quem devem comprar mais armas para fazer oposição a eventuais ataques patrocinados pelo ocidente.

Fonte: BBC